Pesquisar este blog

20 de janeiro de 2008

2007, Eu e Deus

O ano foi especial. Na minha retrospectiva, considerei-o melhor que outros. Mas, por que será que consideramos alguns anos mais produtivos? Acredito que a resposta está nas experiências vividas. E em 2007 novas situações foram acrescentadas ao currículo de minha vida. Como nos 29 que se desfizeram, neste conheci pessoas, superei desafios, aprendi com as vitórias, derrotas e empates. A diferença é que vivi experiências marcantes que mexeram com minha sensibilidade e despertaram empatia como em nenhum outro tempo.

Empatia é outra palavra para compaixão. Compaixão é sentir a dor do outro em mim mesmo. Senti dores no hospital, na clínica psiquiátrica, no centro de recuperação para dependentes químicos e na penitenciária. Observando, ouvindo e conversando com vítimas da desigualdade social, dos próprios pecados e da maldade inata. Em todos, percebi o desejo de superar a dor, restaurar a saúde, gozar a liberdade.

Nos hospitais presenciei a frieza de funcionários, enfermeiras e médicos. Raramente existia um sorriso acolhedor ou um gesto de afeto. A impressão que deixavam era a de se considerarem estrelas da situação. O status do jaleco branco parecia suprimir o juramento de zelar pela saúde do paciente. Só que do atendimento médico depende a vida dos que ali estão. Assim, a necessidade faz engolir sapos, sublimar direitos, perder a dignidade. Talvez esse conformismo seja um dos maiores pecados da cultura brasileira. Pecado gerado por uma ignorância histórica que continua sendo preservada pelos donos do poder. Isso dói.

O que dizer das clínicas psiquiátricas? São úteis quando existe um mínimo de consciência do paciente, boa intenção dos psiquiatras e o máximo de amor da família. Se não for assim, servem como um excelente local de despojo. Quando famílias querem descartar parentes inquietantes, ladrões de conforto e da paz egoísta, podem usar um lugar de restauração como prisão. Isso incomoda qualquer cristão que se esforça em cumprir a Lei Régia do relacionamentos entre os homens: amar ao próximo como a si mesmo.

Na penitenciária, sentei, senti, ouvi, comi, li, orei. Entendi e internalizei a expressão do apóstolo Paulo: “lembrai-vos dos presos, como se estivésseis presos com eles” (Hb. 13:3a). Entendi que o “lembrar” deve-se ao fato de sermos tendencioso a esquecer aqueles que “desaparecem” do convívio. Senti-me motivado a estudar mais sobre o sistema carcerário. Reencontrei o filósofo francês Michael Foucault e seu clássico “Vigiar e Punir”, onde o sistema carcerário aparece como instrumento de dominação das elites sobre as classes inferiores. Um faz de conta que pune apenas os pobres e constrange à obediência pelo medo. Observando a situação, fiz a pergunta cuja negativa é óbvia: Este sistema pode ressocializar alguém?

Mas os casos mais chocantes estavam relacionados às drogas. Esta artimanha das trevas engana de tal forma que cria uma nova personalidade, com corpos esqueléticos, rostos desfigurados, vozes arrastadas, pensamentos evasivos. Alguns espancaram parentes, outros roubaram os próprios lares e ainda outros se venderam como escravos ao traficante. Em toda esta relação existia, de um lado, a fragilidade humana, de outro, sua perversidade. A voracidade pela substância que temporariamente "ameniza" a dor e "faz esquecer" os problemas, multiplicaram as perguntas e as respostas em minha cabeça. A mais convincente foi a do Senhor Jesus Cristo: “Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai do homem é o que o contamina”. A essência do problema é invisível. O processo de desintoxicação não pode saná-lo. É necessário a regeneração da alma, algo que somente o Espírito Santo de Deus pode fazer.
Em todos esses lugares e de todas essas pessoas, ouvi vozes de desesperança. Muitos afirmam não acreditar na reversibilidade dos quadros. No entanto, não me deixo contaminar pelo vírus do pessimismo. Acredito em um Deus Vivo e Gestor de impossibilidades. Cri e testemunhei a transformação operada na vida desses desacreditados. Lidei com alguns face a face, e ainda hoje posso vê-los na Igreja, dentro de minha casa, no círculo de meus amigos. Como é bom saber que Deus continua contradizendo nossos prognósticos. Onde não há esperança, Ele semeia vida abundante.

Agradeço a Deus por cada minuto de 2007. Por cada pessoa, cada circunstância, cada bênção recebida e transmitida a outros, inclusive a você que lê este artigo.

Pr. Alex Gadelha

0 comentários:


Conselhos no Twitter