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22 de janeiro de 2009

Há Esperança

Jonas era um menino fujão. Fugia de suas responsabilidades e sua família sofria muito com isso. Na escola isso se refletia com mais força, pois sentia incomodado e se lamentava pelas aulas que tinha de assistir. Era inquieto, barulhento e teimoso. Não conseguia se concentrar por um minuto sequer. O seu comportamento resultava na falta de aprendizado, principalmente nas habilidades básicas da leitura e escrita. Para as provas Jonas não estudava, mas ainda conseguia alcançar a média. Isso porque colava em todas elas ou os professores o “passavam” para se verem livres do mau aluno.

Jonas cresceu, mas não amadureceu. Envolvido com um namoro problemático continuava a desprezar os estudos e freqüentava a escola devido a cobrança de seus pais. Ele se tornou um jovem irresponsável, preguiçoso e tolo. Até que sua família se aborreceu e com freqüência e de forma áspera cobrava uma atitude para que conseguisse um emprego e ajudasse nas despesas de casa. Como Jonas não concluiu eficazmente os estudos, encontrava muitas dificuldades. Testes e entrevistas eram uma tortura, pois não sabia se expressar e nunca alcançava a pontuação necessária para a etapa seguinte do processo de contratação. O tempo o pressionava e deixava-o desesperado e revoltado, ora contra os pais, ora contra a sociedade. Estava à procura de culpados, mas sabia que ele mesmo era o responsável pela situação. E as cobranças aumentavam. Como forma de dar satisfação tentou o vestibular. Claro que não passou. Os anos de cola atrofiaram sua inteligência.

Jonas parecia sem jeito. Ele se via assim. E na fuga pulou dentro do álcool. Conheceu uma turma que não lhe negava a meia de cachaça nem o gole da cerveja. Mas sua estadia entre eles foi breve, pois testemunhou confusões e desavenças surgidas ao redor da mesa, sofreu acidentes na perigosa mistura com a velocidade e perdeu amigos afogados no fundo do copo. Entre eles existiam aqueles que iam além da bebida, usavam drogas. Um deles ofereceu um “emprego” com excelente salário. Jonas começou a imaginar o fim das cobranças dos pais e a liberdade financeira com que tanto sonhava. Mas logo passou a mão na consciência e apagou tais expectativas. É que dentro de si ainda existiam as advertências de sua mãe sobre o não envolver-se com drogas. “Empregar-se” como traficante não dá.

Ele se afastou da turma da pesada e também do mundo. Trancou-se em casa e em si mesmo. Era depressão, mas os seus pais não entendiam, não estudaram o suficiente para isso. E os amigos? Que amigos? O temperamento explosivo não permite amizades duradouras. Ou mais cedo ou mais tarde a bomba perde o pino e lança as pessoas para longe. Parecia o fim da irresponsabilidade e do próprio Jonas.

Mas aconteceu que ele recebeu uma visita inusitada, capaz de alimentá-lo de esperança. Foi o Francisco, mais conhecido como “irmão Chico”, o vigia da escola. Um senhor prestes a se aposentar a quem o Jonas não via há cinco anos. Seu Chico era alguém que acordou para a vida apenas depois de conhecer o Autor dela. E à medida que iam conversando percebiam que suas histórias se assemelhavam. O “irmão” disse que na sua juventude foi fujão e irresponsável, confessou que concluiu os estudos apenas aos trinta e cinco anos, também disse que passou pelas mesas de bares e que quase usou e vendeu drogas. Mas era inevitável ele mencionar o fato que serviu como divisor de águas para a sua vida: Jesus Cristo. Ao ouvir este nome, Jonas quis se aborrecer e logo pensou sobre o “papo careta de religião”. Mas a simplicidade, o exemplo e o interesse daquele senhor nutriram um sentimento de respeito, por isso entregou-lhe o direito de ser ouvido. E Chico falou com sua simplicidade sobre a diferença entre seguir a Jesus e a Religião, falou sobre amor, responsabilidade pessoal e julgamento divino. Jonas entendeu e quis conhecer mais do Cristo que moveu a vida daquele senhor e que estava renovando a sua esperança.
E Jonas mudou. Cristo o mudou. Com muita fé, esforço e “bicos” ele se reergueu da sepultura, superou a depressão, ganhou vida. Uma oportunidade para recomeçar, a qual soube aproveitar muito bem. Reaprendeu a ler, a escrever e a se expressar. Passou a ser admirado, imitado. Os seus pais também decidiram crer no mesmo Salvador e seguiram-no até o último fôlego. Jonas concluiu o curso técnico, conseguiu um bom emprego, casou-se na Igreja, teve filhos, descobriu seus dons e assumiu responsabilidades com Deus.

Jonas é um exemplo de que ainda há esperança para o aflito, para alguém que trilha pela depressão, drogas, religiosidade frívola e tantas mazelas da vida sem Deus. Jesus Cristo é a Vida. Entenda, creia.

Pr. Alex Gadelha

11 de janeiro de 2009

O Desafio de Uma Equipe Pastoral Ética

Um pastor é uma autoridade. Alguém que exerce influência diretiva sobre outras pessoas, ou seja, alguém que devido à função em que foi colocado por Deus tem a responsabilidade e a capacidade de orientar a vida de outras ovelhas como ele. A autoridade pastoral deve ser conquistada pelo caráter e não pela imposição. Entenda caráter aqui como integridade, conhecimento, sabedoria, convicção, amor. É importante admitir que o ministério pastoral advém de um dom que precisa ser reconhecido pelos irmãos e desenvolvido por quem o recebeu. Ele precisa estar consciente de que é um dos muitos membros que integram o Corpo, por isso não deve fazer tudo em uma Igreja, precisa seguir a orientação bíblica de aperfeiçoar os santos para o desempenho do ministério, para a justa cooperação entre as partes. Sozinho ele adoece, enfarta. Em Corpo ele vive e deixa a Igreja viver.

Em algumas Igrejas o pastor não é o único a exercer este dom, portanto, ele tem a oportunidade de trabalhar com outros de mesma vocação. Isso é bom, é bíblico, mas também pode trazer problemas. Não somente devido a números, mas, sobretudo, por questões de relacionamentos. Em qualquer trabalho de Equipe as más intenções que habitam em nós insistem em se evidenciar através da competitividade, inveja, orgulho, mentira e ciúmes. É a tentação pelo poder que ainda teima em seduzir o homem e que precisa ser resistida, combatida, aniquilada. É a difícil prática de considerar os outros superiores. É a barreira do orgulho, o desafio de amar como Cristo amou.

Mas apesar da maldade intrínseca no homem, o trabalho em equipe, quando bem orientado, gera força, amadurecimento, confiança. Assim, uma equipe pastoral teologicamente afinada, respeitosa aos diferentes estilos no exercício do dom e tolerante aos tipos de personalidade tende a se tornar inabalável, restauradora. Ora, uma igreja local onde os seus pastores ultrapassam o coleguismo e cultivam amizades significativas irá desenvolver uma liderança curativa por ser imersa em amor. E isso é bom. Muito bom.

À medida que uma igreja cresce, surge a necessidade da equipe se estender para diferentes locais e servir a diferentes rebanhos. Nesse caso, como deve ser o relacionamento entre ministros e congregações? É preciso privilegiar o bom senso. Pois se na filosofia unipastoral as insatisfações correm entre os corredores da Igreja local, no pluripastoralismo tanto críticas honestas como comentários maliciosos podem rondar os ouvidos da Equipe. Para não ser usado como peça de xadrez, urge uma postura que não se precipite ao ouvir sobre as deficiências dos companheiros. Isso porque o contato e a prática ministerial mostram que deficiências e ineficiências são percebidas em qualquer pastor. Alguns têm problemas com o domínio da língua, outros com o da pregação; existem aqueles que são tímidos, como também os que lutam contra o temperamento explosivo; pode se falar dos maus administradores das finanças e do lar, além dos que combatem a preguiça e o orgulho. Enfim, percebe-se que pastores também cometem os mesmos erros dos humanos. Dos humanos, os “divinos” não erram.

Ora, por sermos vulneráveis, é necessário respeitarmos a fronteira ética entre a equipe, com uma atitude sincera e respeitosa à vocação e à pessoa do ministro. Isso não diz respeito a pecados, pois quando estes envolvem o todo precisam ser tratados mediante decisão coletiva, com uma disciplina que objetive a sincera restauração. Mas sobre o relacionamento entre pastores e congregações, mais especificamente sobre o derramar de queixas de membros sobre um colega, a reação à crítica ao terceiro ausente deve zelar pela discrição e pela honestidade, por aquele princípio bíblico de não aceitar acusação, senão na presença de duas ou três testemunhas. Às vezes as insatisfações e acusações de uma pequena parte da Igreja não refletem o todo nem a realidade. Ou às vezes as expectativas que as ovelhas criam sobre o pastor são irreais. Quando um pastor de outra localidade tem contatos esporádicos e superficiais com alguns membros, é preciso pesar as opiniões e a vida de Igreja, pois lá pode está alguém que serve há anos, que conhece histórias e intenções, que está semanalmente ensinando, ouvindo, vendo e falando com as ovelhas do pasto.

Um ministério pastoral saudável precisa cultivar um clima ético, acima de tudo amigável, transparente, leal. Um ambiente onde haja liberdade para ser quem se é e onde haja espaço para se abrir sem o medo de que tudo o que for dito num momento de crise pessoal possa ser usado em um outro de conflito e discordância. Que a tendência ad hominen esteja vigiada antes da exortação ou repreensão, mas que essas duas atitudes reparadoras sejam aplicadas com um espírito firme e brando. Que se olhe para o companheiro com um coração sinceramente preocupado em vê-lo crescer e não em rebaixá-lo ou agredi-lo por meio de um humor depreciativo, crítico e escamoteado.

Enfim, pastores que trabalham juntos devem não apenas olhar para a Igreja, mas sobretudo olhar para si e entre si. De maneira que se evite hipocrisia, privilégios e partidos. Também devem se esforçar por desenvolver uma sensibilidade capaz de discernir quando o outro precisa de conselhos, de suporte e de uma intervenção permitida. Penso que será assim que qualquer ministério pastoral vencerá o desafio de trabalhar em equipe e de forma ética.

Pr. Alex Gadelha

4 de janeiro de 2009

Pesando 2008

Quando queremos expressar uma situação dificultosa temos o costume de dizer que “a coisa está pesada’’. Imaginamos uma bagagem que vai ficando difícil de carregar a fim de explicar a sensação de pressão que as circunstâncias e as pessoas colocam sobre nós. Coloquei 2008 na balança e concluí que foi um ano pesado. Tive de carregar muitos fardos, meus e de outros. Na verdade, observei essas cargas na vida de muitos. Desde inundações, assaltos, crises financeiras e desempregos, a separações, violência, enfermidades, mortes e tantas outras situações. Vi, ouvi e provei atitudes como a falta de ética, hipocrisia, indiferença, insubmissão, fofocas, invejas e outras mazelas que se repetem todos os anos, em todo o mundo, mas não tão próximas de mim como neste.

Situações pesadas não significam situações vazias. Aprendemos muito com elas. E uma dessas experiências marcantes foi o período em que estava ensinando à crianças, adolescentes e jovens em uma escola pública. Logo percebi como a Igreja está distante de pessoas carentes, que estão longe dos pastos verdejantes e das águas tranqüilas. O perfil que observei é preocupante. Ora desatentos, ora explosivos, às vezes silenciosos, amáveis, mas também indiferentes, tanto ingênuos como maliciosos. Uma mistura da simplicidade considerada por Jesus e Rousseau, e da estultícia observada por Salomão e o cartesianismo.

No árduo trato educativo com estes aprendizes tive a oportunidade de amá-los e de testemunhar um interesse real e empático de professores que me ensinavam silenciosamente a arte de educar. Além de criar vínculos, pude testemunhar minha fé e notar mudanças na atitude de alguns alunos e docentes. Procurei internalizar aquela postura de Rubem Alves, ao dizer que “quando se admira um mestre, o coração dá ordens à inteligência para aprender as coisas que o mestre sabe. Saber o que ele sabe passa a ser uma forma de estar com ele. Aprendo porque amo, aprendo porque admiro”. Tomado por este sentimento procurei ultrapassar a transmissão de conhecimento, procurei construir vida, de maneira que os que estivessem ao redor sentissem atraídos pela fonte de meus princípios e atitudes: O Mestre Jesus.

Estive também na direção e nas salas do Seminário Teológico McClanahan. Ali tive de suportar idéias, ações, reações e sentimentos de peso. Posturas indesejáveis, indiferença à autoridade, orgulho, desvalorização de princípios divinos, procrastinação e tantos fardos podem servir para o amadurecimento e nos ensinar a amar como Jesus. Mas não existiram apenas cargas ásperas entre o grupo de estudantes, existiu aquelas que demandaram grandes esforços em pró de Boas Novas. Os três dias de experiência missionária em Icapuí foi uma delas. O grupo de seminaristas e pastores se desgastaram prazerosamente. A hospitalidade do povo, a disposição e a habilidade do missionário José Carlos e o contato contínuo entre nós produziram uma reflexão profunda sobre a nossa prática ministerial e nosso relacionamento com Deus. Sol, suor e areia se misturaram à comunhão, evangelização e adoração. Que dias cansativos, desgastantes, agradáveis e edificantes foram aqueles!

2008 também foi um ano difícil na e para a Igreja. Pouca conversões falta de voluntariedade, pecados revelados, queixas, críticas, espírito faccioso, ausências, legalismos, liberalismos e um conjunto de problemas que rondam qualquer pastor, qualquer igreja. Em situações de crise todos criticam, procuram algum culpado, e geralmente sobra para quem está em evidência. É o peso da liderança. Mas críticas honestas e apropriadas podem transformar atitudes. Já as desonestas, sem conhecimento de causa, produzem desmotivação. O segredo é perguntar ao crítico o que ele pode fazer para ajudar a mudar a situação. Geralmente não há respostas, ou elas não ultrapassam o verbalizar, fogem da ação. Mas não posso ser injusto com pessoas que ajudam a suportar a carga da liderança. Muitas mãos e ombros se uniram para promover as coisas boas vividas em 2008. Tais acontecimentos quase foram soterrados pelo pessimismo e o egoísmo, mas vale a pena tentar desenterrá-lo na solitude da memória. Deixo isso para você fazer quando estiver lendo este texto. Eu já fiz.

Os pesos de 2009 estão à porta. Quero carregá-los, mas não sozinho. Preciso de ajudantes dispostos a tomar a iniciativa de conduzir o barco quando a maré estiver baixa, longe do conforto e da estabilidade. Espero em Deus que eu encontre você.

Pr. Alex Gadelha

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