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18 de maio de 2012

Um Caminho de Dores e de Milagres


A psicologia oncológica explica que quando alguém sofre com o câncer, a família inteira adoece. A tentativa de não se envolver será sempre frustrada, pois há um consequente desgaste entre pais, filhos, parentes e amigos próximos. Do início ao fim, na cura ou na morte, adrenalina e tensão sugam forças internas e provocam conflitos externos. É um duro caminho que ensina muito sobre o ser humano, sobre si mesmo e sobre Deus.

Uma primeira lição é a de que quando alguém está realmente preocupado com o sofrimento do outro, logo age movido de compaixão para suprir-lhe necessidades. É típico em situações de doenças crônicas ouvir e usar expressões do tipo: “se precisar de alguma coisa, pode contar comigo”; “estou orando por você”; “tudo vai ficar bem”. São palavras que podem servir tanto como consolo genuíno, como também de escape para omitir uma ajuda concreta. As ações revelam se o dito da boca é coerente com o que está no coração.

Em um caminho de dores é possível visualizar a reputação que construímos ao longo da vida. E aquilo que colhemos é sempre mais do que semeamos. Se durante a fase saudável e consciente agimos com amor, misericórdia, humildade e verdade, quando a tormenta vier, muitos que foram abençoados com a nossa existência lançarão coletes salva-vidas. Eles surgirão de tempos esquecidos, lugares inesperados, pessoas próximas e distantes, consanguíneos ou admiradores. Na dor, o consolo ou desconsolo recebido é o termômetro do calor dos relacionamentos aquecidos na estrada dos anos.
   
Praticar misericórdia cansa e ao mesmo tempo traz satisfação. Quem exerce capelania entende profundamente a bem-aventurança aos misericordiosos. No início de um diagnóstico crítico há um choque que toca a sensibilidade e solidariedade das pessoas. Mas quando se aproxima o fim da primeira milha, as pernas vacilam e muitos desistem de continuar o percurso da segunda jornada. Nessa etapa se provam a força dos laços familiares e a lealdade dos amigos.

A dor do outro é minimizada por quem está longe. Quem está distante não enxerga, não sente, nem mede adequadamente a dimensão do sofrimento alheio. Mas para estar próximo não precisa está no mesmo lugar. Ações de solidariedade ultrapassam fronteiras espaciais, tocam por mãos alheias e principalmente pela intercessão a Deus.

A fragilidade de um doente o torna vulnerável à exploração. Por isso, não é de admirar a existência de uma indústria, de um mercado e de uma teologia do câncer. Falta de transparência médica, preço abusivo de medicamentos e um discurso religioso que alimenta a culpa afrontam o doente. É um abuso predatório, como um animal que persegue sua presa até cansá-la e então devorá-la. Deve ir para trás das grades quem usa a angústia de uma família para tomar vantagem sobre sua dor. Infelizmente, existem monstros assim.

A morte é o aguilhão do pecado que espeta o corpo para julgamento da alma. Ela é tão certa que humilha qualquer atrevimento antropocêntrico. Quando assediados por ela, as emoções insistem em deturpar a razão e só podem ser equilibradas por meio da fé. Esta não deve ser depositada em qualquer coisa ou pessoa, mas no Senhor da vida, o qual atende pelo nome Jesus. Ele é maior que a própria fé. É infinitamente melhor largar-se em seus braços do que tentar impor a vontade sobre a dEle. Isso não significa acomodar-se à situação, nem muito menos desistir. Como diz o poeta: “milagres acontecem quando a gente vai à luta”. É só lembrar do rastejar da mulher com fluxo de sangue, dos quatro homens que elevaram o amigo paralítico por cima da casa de Pedro até a presença de Jesus ou dos gritos incontinentes de cego Bartimeu: “Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim!

Quem trilha pelos caminhos ou ao lado de alguém com uma doença como o câncer, passa por lugares-comuns como cirurgias, radioterapia e quimioterapia. Por quem seremos consolados durante esse caminho faz toda a diferença, pois quando entregamos a vida e a morte a Deus, a vitória já é certa, mesmo que os resultados a olho nu apontem o contrário. O consolo do Senhor é eterno e o seu amor é manifestado através do carinho e da ação de amigos e irmãos. Tal verdade nos impulsiona a prosseguir crendo e experimentando o milagre. E mesmo que digam que não há mais esperança, pela fé corremos contra ela.

Pr. Alex Gadelha

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