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6 de março de 2010

Saudade e Certeza

    
            Saudade é a memória que permanece depois que alguém partiu. Um poço de recordações que jorra imagens, sons e momentos compartilhados intensamente. Sentimento capaz de regressar no tempo para evocar lágrimas e sorrisos, dores e alegrias, lembranças boas e ruins.

            As pessoas sentem saudades de lugares que marcaram a sua história, de animais de estimação, de objetos com valor simbólico e principalmente de outras pessoas. Aquelas que de uma forma ou de outra construíram um vínculo de amizade afetivo e consciente. E quando esse nó se desfaz, dizemos que um pedaço foi embora, como se uma peça do quebra-cabeça da nossa história fosse retirada. Experimentamos assim a sensação de incompletude.

            Existem muitas dores no mundo, como a sentida por uma mulher no parto, a de alguém que ouve um diagnóstico irreversível ou ainda aquelas derivadas da traição, da indiferença e da rejeição. Mas os maiores estragos continuam associados ao aguilhão da morte. Principalmente quanto este perfura a nós mesmos ou a alguém próximo. A morte aperta o coração até os olhos lagrimejarem de saudade.

            A perda continua sendo perda, mesmo que o Deus das consolações garanta um futuro de paz para o crucificado com Cristo. Para alguém que permaneceu distante é fácil proferir sutis acusações de incredulidade, palavras de censura religiosa sem compaixão. Mas para aquele que desfrutava a presença contínua da pessoa amada, o fato de saber que ela está no céu até ameniza a dor, mas não a extingue por completo. Os amigos e parentes têm o direito de chorar a ausência do ente querido. Não convém desesperar, mas é inconveniente não chorar ou não entristecer.

            É duro receber um amigo apertando a alça de seu caixão ao invés de sua mão. As palavras de boas-vindas e o sorriso espontâneo são forçosamente substituídos pelo silêncio e o rosto rijo.

Em um velório é possível enxergar diversas motivações. Há aqueles que estão ali por curiosidade, outros por necessidade. Alguns preferem não ver o estado físico final do querido enquanto outros fazem questão de guardar na memória uma última imagem, mesmo que pálida e sem vida, mas que simboliza a existência real de quem caminhou na mesma estrada. Ouve-se tanto o clamor daqueles que ainda não tem certezas como as lágrimas serenas dos que experimentam a vida eterna antes da morte. Apesar de reações distintas, todos sofrem.

Quando há a necessidade de vigília frente ao caixão, o estado dos vivos é de cansaço, desgaste e tensão. Os nervos roubam o sono. E entrar o outro dia na presença de alguém ausente parece ser necessário para que alguns aceitem a perda e entendam que a pessoa amada verdadeiramente se foi.

Diante de um quadro tão pesaroso, Deus continua sendo adorado. E em um culto fúnebre Ele é honrado pela herança de fé deixada com palavras, gestos e pensamentos de quem foi fiel. Existem despedidas que deixam alívio, mas outras suscitam grandes saudades. E para quem conseguiu escrever uma história de fidelidade a Deus, não é necessário exigir homenagens póstumas, pois acontecem naturalmente. Coroa-se em vida quem é humilde, sinceramente voluntário e profundamente amoroso. E no Juízo, o próprio Deus colocará um louro de glória sobre pessoas assim.

O que se canta em cerimônias assim? Canta-se a certeza expressa na memória de quem partiu, exalta-se a confiança no Autor e Consumador da fé. Ele que aprecia a morte dos seus santos, que tem prazer de receber em seus braços alguém que o amou de verdade. Quem não se sente feliz ao receber em sua Casa um amigo que ama?

Fechar o caixão, apertar mais uma vez a sua alça e seguir o cortejo rumo ao cemitério é a pior despedida. Nesse momento não é possível visualizar a imagem da pessoa, apenas a madeira que a envolve e que em breve guardará apenas pó. A descida ao túmulo e o lançar da areia simbolizam o fim.

Mas não é o fim. A ressurreição desfará o poder da morte. Os sete palmos não podem conter a alma de quem confia no Salvador Jesus Cristo. Suas promessas são irrevogáveis, Ele mesmo afirmou ser “a ressurreição e a vida”. Não vivemos a miséria de uma vida confinada às coisas deste mundo, pois a nossa Pátria está nos céus, de onde O aguardamos. A saudade de um crucificado com Cristo não é eterna, apenas momentânea. Ela será desfeita no encontro com o Senhor e com todos os que O amaram na vida e na morte.  

Alex Gadelha   

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